O meu próprio umbigo

parte II

Dezembro 13, 2007 · Deixe um comentário

Depois daquele show que você foi com seus amigos e eu com as minhas amigas, você me chamou pra ir pra sua casa. Aceitei. Claro. Era tudo o que eu queria naquela noite. Não tinha feitos planos. Não queria outros planos.

Você estava bêbado, eu não. Eu me despedi da amiga que restava daquele show e você se despediu dos seus amigos.
Metrô. E lá nós éramos dois amigos que se conheciam faz tempo, mais ou menos há um mês, conversando. A gente ficou tão perto a ponto de se beijar sem nenhum esforço, mas ao invés disso falamos sobre o número absurdo que tinha de crianças no metrô àquela hora daquele sábado à noite tão abafado.

Saímos do metrô e ficamos um bom tempo analisando uma placa que não fazia sentido em nossas cabecinhas, na minha de fósforo e na sua do cabelo bagunçado.
Você ofereceu cerveja. Claro que eu queria. E você me contou que não gostava de beber, que só bebia porque gostava da sensação de estar bêbado, só bebia pra ficar bêbado e eu contei que eu gostava do gosto, da sensação. Enfim, que eu era uma bêbada.

E me contou mais do seu namoro desastroso e me disse mil vezes pra eu não namorar. Eu ria. “É sério”. Eu achava mais graça ainda.
Chegamos na sua casa. Fomos direto pro seu quarto. Entrei e sorri. Tive saudades daquelas páginas de gibis coladas nas paredes e no teto e também dos outros cartazes e daquela sua cama bagunçada, que você tentou dar uma arrumada. Você deitou nela e me chamou pra deitar do seu lado, derrubei um pouco da minha cerveja quente no seu colchão e lençóis. Dei um último gole, percebi que até pra mim ela estava quente demais e resolvi deixar de lado.

Você ligou a TV e me mostrou seus vídeos preferidos daquele site famoso de vídeos. Falamos sobre propagandas divertidas e você me mostrou umas. Depois colocou uns clipes. Eu queria Velvet. Se encaixaria bem naquela hora.

Eu estava cansada, você também. TV desligada, luzes idem. Música. Não lembro muito bem o que era, talvez Nirvana. Você voltou a deitar do meu lado. Agora a gente conversava tão perto que não se beijar não faria sentido algum.

Começou como começa nos filmes, você me beijou devagar, sem a menor pressa e com o maior tesão do mundo, a gente tinha a noite inteira. So what’s the rush? Passou a mão pelo meu corpo vestido. Sabia exatamente o que queria, sabia exatamente onde passar a mão, sabia exatamente como me deixar com tesão. Descobriu que passar os dedos levemente pelas minhas costas me fazia estremecer, isso sempre foi tão óbvio e tão fácil de ser descoberto, mas nunca ninguém descobriu.

Eu abria os meus olhos de vez em quando, precisava ver sua expressão, seus olhos. Fechados. Eles estavam fechados quase sempre. Simplesmente sentindo, se deixando levar pelo que quer que fosse e quando você os abria, você me olhava e sorria.

E no auge daquele monte de desejo suado, a gente descobriu que aquilo que permite que pessoas possam fazer sexo com desconhecidos e os protege de um monte de doencinhas, estava em falta naquele momento. O desejo, a vontade tiveram que ser adiadas e deram lugar ao sono, que estava sendo adiado e guardado lá no fundo por nós dois.

O sono veio, mas foi mal recebido. Me revirava e não conseguia dormir direito. Acordava pensando que a manhã podia chegar logo. Levantei logo que o primeiro raio de luz entrou pelas frestas da janela, da porta. Olhei pro lado e você ainda dormia. Me vesti um pouco mais e voltei pra cama. Acordei muitas outras várias vezes, mas você ainda dormia, melhor do que eu.

Até que eu acordei e você estava acordado, sentou-se na cama, olhou pra trás e me viu acordada, sorriu. “Volta a dormir, ainda é cedo”. Não consigo mais. A gente conversou um pouco e você decidiu se levantar de vez, se descobriu de ressaca e correu pro chuveiro.

Voltou. Deitou do meu lado e eu senti seu cheiro. It’s all about that for me. OH GOD. Cheguei mais perto pra sentir mais e melhor, até eu não sentir mais cheiro nenhum, só o seu.
A gente assistiu mais vídeos engraçados. Depois Baby TV. Eu fiquei encantada e você ficou encantado com aquele troço colorido-viajante-hipnotizante e assistimos até o final.

Descemos pra comer qualquer coisa, você me disse que não comia fazia um dia inteiro, por isso tinha ficado bêbado tão rápido. Eu sentei na mesa e peguei uns gibis, você foi preparar a tal pizza da Sadia que de sadia não tem nada e que não era da Sadia. Você sentou na minha frente e não me deixou ler o gibi. Ligou a TV e conversamos sobre o que passava, que tanto fazia, o que importava era a conversa. Por algum motivo eu não conseguia comer a minha pizza, você comeu por mim e eu comi uma pêra. Você comentou que o dia estava devagar, eu concordei. Ótimo, assim tem mais tempo pra gente começar aquilo que a gente não terminou ontem.

Subimos. Cama. Eu estava cansada e de ressaca. Você também. Mas nenhum dos dois parecia querer dormir de novo. Eu virei de lado e te olhei, você me olhou. Beijo. Beijo calmo, sem pressa, mas que parecia ter uma pressa gigante. Tesão. Todo o tesão acumulado do dia anterior estava ali, pronto pra ser usado. Você passou as mãos de leve pelas minhas costas, já sabendo que eu estremeceria. Você conseguiu me deixar com uma vontade absurda, que nenhum outro cara conseguiu. Parte de cima voava. parte debaixo também. e.

E a gente lembrou porque ontem a gente não tinha acabado com a nossa vontade, o nosso tesão. “Peraí, eu vou na farmácia, é rapidinho”. Vou com você. E a gente fez umas piadinhas com isso, que tinham a ver com sorvete e você ser gordo.

Fomos. E a gente conversava como se fôssemos amigos há bastante tempo, com toda a intimidade do mundo. Ia de conversas engraçadas às sérias. O dia estava abafado. Fomos no supermercado, porque a farmácia estava fechada.

Voltamos. E continuamos exatamente da onde paramos. Talvez o desejo, a vontade e o tesão tivessem dobrado. E as roupas voaram mais rápido dessa vez. E as mãos foram mais ligeiras. E a boca tinha mais vontade. Dobrou.

Descobri que quando você fica excitado, sua boca fica fria. “Deve ser porque o sangue desce”, você comentou. Deve ser. Eu sorri, o que aliás foi uma coisa constante na minha boca, esse tal desse sorriso.

Você me olhava bem nos olhos. “Eu tô segurando, tá tão bom. tão bom”. Sorriso imediato. Você conseguia me deixar com tesão sem nem precisar me tocar, só com essas suas caras e bocas e com essas suas frases. Você abaixou a cabeça, levantou devagarinho, me olhou e falou alguma coisa. Você foi ótimo. Ótimo. Vermelho de novo. Isso me lembra a Isabelle, dos Sonhadores, sempre que ela goza, ela que é bem branquinha, fica corada e com os olhos quase fechados, como se tivesse fumado um monte de substâncias ilegais. Eu gosto de sinais aparentes de que ela chegou lá. Acho um charme. Acho que é quase tão bom quanto um orgasmo.

Ainda ficamos mais um tempo fazendo outras coisas. youtube, wii, comida, cerveja, ressaca, preguiça, mtv, gibi da mônica, sexo, sono, conversas sérias e absurdas, fotos velhas…

Na hora de me deixar no metrô você me disse que da próxima vez o seu cabelo estaria mais arrumado, eu disse que tava bom daquele jeito e fui mexer nele, você se esquivou e foi embora.

E tudo terminou de novo com um abraço e um esboço de uma promessa sem ser promessa de um novo encontro.

Pelo menos eu sei que dessa vez eu me esforcei pra mudar algumas coisas. acho que agora vai. agora eu consigo mudar certas coisas. “play one night stand but mean it”. e dessa vez eu fiz pra significar alguma coisa. pra mim e quem sabe, pra você.

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[conseguia sentir o seu cheiro, mesmo depois de banhos, era como se eu voltasse pro seu quarto, pra você. Na segunda noite em que eu fui inteira sua e você foi inteiro meu]

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