O meu próprio umbigo

Para alguém que ainda é…

Outubro 7, 2007 · Deixe um comentário

Eu lembro bem daquela vez que a gente saiu. A segunda vez. Subi a escada do metrô com um frio na barriga. Buterflies on my stomach. Minha expressão preferida. Não queria te encontrar no fim da escada. Queria que você ainda não estivesse lá. Ainda. Precisava de um tempo pra me preparar. Respirar, sabe? Só tinha cinco minutos. Você é sempre muito pontual. Claro. Olho pro lado e lá está você, vindo pra mim. E sorrindo. Sorrio de volta. Abraço apertado. Posso até sentir seu cheiro que não é perfume. É o seu cheiro mesmo. E como é bom. A gente vai andando até o teatro. E rindo. É inevitável, eu sempre rio quando to com você. Sempre me divirto. “Sempre” é uma palavra forte, né? Mas é a única que eu acho que se encaixa aqui. Hahaha, vocabulário nada vasto. A gente senta na escada pra esperar começar a tal da peça e pra tomar um ar. A noite estava tão agradável. Clichê. Mas era mesmo verdade, não é só pra embonecar o texto. Olha aquela menina, ela ta usando nada! Cadê a roupa dela, que pôcavergonha, meudeus. Oh sim, é só um vestido que parece mais com pele do que com roupa. E você me disse como estava a vontade pra falar dela também porque eu tinha comentado primeiro e também não conseguia tirar os olhos dela. Entramos no teatro. Peça começa. Você me olha toda hora, quase não desgruda os olhos de mim. Como você fazia na classe. Só que dessa vez olhava mesmo, pra eu perceber que estava sendo olhada. Fiquei sem graça. Sempre fico. Não olhava de volta porque tinha vergonha. Coisa boba de menininha.Engraçado, porque é tão fácil flertar e fazer cara de femme fatale pra um desconhecido em qualquer lugar. Eu chego a olhar tanto que o cara fica sem graça e eventualmente acabo assustando o coitado.Mas naquela situação, com você, é tão difícil de simplesmente olhar. Sem precisar flertar. Só olhar. Eu não conseguia. Minha cabeça se negava a virar pro lado e deixar que os meus olhos se encontrassem com os seus.Saímos da peça. E o tal do beijo ainda não tinha saído. Os dois sabiam muito bem porque estavam lá e era pelo mesmo motivo. Perguntei se você precisava ir embora, você disse que tinha mais um tempo. Cerveja? Você topou. Você não bebe, mas bebeu dessa vez. Procuramos bar aberto. Nada. Vai supermercado mesmo. Estava louca por uma cerveja misturada com essa sua risada estranha e engraçada. Sentamos no banco de fora do supermercado. Conversamos sobre cerveja muito perto. Tão perto que nossas pernas e braços se encostavam toda hora. Até que fomos expulsos de lá porque ia fechar. Voltamos pra porta do teatro. Sentamos na escadaria. Dei o último gole da minha cerveja quente e deixei a garrafa de lado. O assunto acabou de propósito. Ficamos nos olhando por alguns segundos sem falar nada. Consegui encará-lo, mas não beijá-lo. Você que veio. O beijo tão esperado pelos dois veio. E um e dois e vários e muitos. Gosto do jeito sério que você fica depois que beija. Parece que se concentrou um monte na sua tarefa. Estava empenhado. Por isso a seriedade. E você fica sério de verdade. Não dá risada. Não sorri. Jeito bonito de mostrar que não quer quebrar o clima. Quase cinematográfico. Tinha que usar essa palavra pra descrever algum gesto, característica, alguma coisa sobre você. Que é quase uma bíblia ambulante de cinema. O segurança batia no vidro e acendia e apagava a luz querendo que a gente parasse. Ou algo do tipo. Você não se importou com isso. Me puxou pro seu colo. Meudeus, essa noite eu não durmo e não volto pra casa e não quero voltar e não faço mais nada. Me leva pra onde você quiser. E depois me joga na sarjeta que eu não vou me importar. Não. Não faz isso não, melhor não fazer. Eu vou me importar sim. Depois vou ter que ficar recolhendo os caquinhos e me remontar. E isso dá trabalho. E eu sou preguiçosa.Você precisava ir embora. Quis levantar comigo no colo. Te desafiei. Você pensou um pouco. Mas achou melhor não, já que estávamos no topo de uma escada. Você foi comigo de ônibus. Você nunca vai comigo de ônibus, porque além de demorar pra chegar na sua casa e pra chegar no ponto, é mais fácil pra você ir de metrô, é mais perto. A gente sentou no último banco do ônibus novo, aquele bem no alto. O meu lugar preferido com a minha pessoa preferida. Agarrei o seu braço, tava morrendo de vontade de ir ao banheiro. E toda vez que a vontade apertava eu apertava o seu braço com força e você me apertava de volta. Era bom. Às vezes eu nem tava com vontade, mas apertava seu braço só pra você me apertar de volta. Você já tava atrasado pro seu compromisso. Mas não parecia se importar.  A gente tava quase chegando no seu ponto e eu não queria te deixar ir. Não demonstrei isso. Beijo no rosto e você desce do ônibus. Olhei você ir. Acenei. Uma das noites em que você foi inteiro meu acabou. Voltei pra casa sorrindo. Sabe aquele sorriso bobo que só gente boba apaixonada tem depois que vê ou fala ou abraça ou beija a pessoa? Esse mesmo.

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