A aula de Yoga tinha acabado, era umas seis e meia da tarde. Saí na rua e estava chovendo. Droga. Eu não tinha um guarda-chuva. Pra falar a verdade, eu nunca fui com a cara de guarda-chuvas, sempre preferi me molhar a ter que ficar segurando um treco traiçoeiro daqueles, que pode sair voando a qualquer momento. Queria chegar logo no lugar, que não era muito longe dali. Então resolvi enfrentar a chuva. Desarmada mesmo.
Fui andando. Talvez o mais devagar que eu podia. Queria chegar no lugar logo, mas não estava com pressa nenhuma, sabe? E era engraçado ver as pessoas encolhidas em seus guarda-chuvas com medo de se molharem, como se fossem feitas de açúcar. Ou então a procura de abrigos contra a chuva. Banca de jornal ou o cantinho do telhado de uma casa qualquer servia. Ou correndo. E eu ali. Andando. Andando enquanto tudo corria.
Parecia cena de clipe. Tudo corre e se esbarra e se mistura na paisagem chuvosa e passa batido. Menos a protagonista. Não importa se ela vai ficar encharcada no final. O que importa é aquele momento. Mesmo porque depois que a gravação do clipe acabar, ela tem toalhas e banho quente a disposição. Banho quente talvez não, mas toalha com certeza. Eu não tinha nenhum dos dois. Mas isso não me importava muito. Eu realmente não estava prestando atenção ao meu redor, já tinha me perdido nos pensamentos bizarros dentro da minha cabeça de fósforo.
Ué. Tinha parado de chover? Mas as pessoas ainda continuavam debaixo de seus guarda-chuvas e de suas proteções. Olhei pra cima e lá estava um guarda-chuva me protegendo. Olhei pro lado e um menino estava acoplado a esse guarda-chuva. Oh. Invadi o guarda-chuva alheio. Eu estava tão distraída assim?
Parei. Esperei ele andar um pouco. Ele parou. Virou pra trás e disse algo como:
- Você não vem?
Sorri. Claro que eu ia. Adoro gentilezas, especialmente de estranhos. Já que elas quase nunca acontecem. Ele puxou papo. Perguntou e falou coisas que eu provavelmente não vou lembrar. Eu tava morrendo de vergonha. Quase não perguntei sobre ele. Aliás quase não falei. Mas queria. Só não sabia o que dizer. Às vezes quando eu quero muito falar, as ideias não vem.
Simplesmente não vem. Branco total. A única coisa que eu sabia era onde ele fazia faculdade porque ele estava com aquela mochila vermelha escrito bem grande “Mackenzie” e que ele estava indo pra lá ou não. Mas eu não tinha certeza de nada disso. Afinal não perguntei. Burra. Não perguntei o nome dele, ele não perguntou o meu.
O caminho era curto. Mas mesmo assim acabou mais rápido do que eu esperava. É agora. Vou falar tudo o que der na telha. Vou chamá-lo pra sair. Perguntar o nome dele. Se ele quer ir beber uma cerveja e jogar umas besteiras aleatórias na mesa de um bar aleatório. Mas não. Demos um “tchau”, assim de longe. Queria pelo menos ter agradecido melhor e não ter falado um “obrigada” qualquer sem nem olhar pra cara dele. Tava ensaiando o caminho inteiro o jeito como eu ia agradecer, enquanto ele comentava alguma coisa sobre a chuva. Queria ter ido mais um quarteirão com ele, mesmo que saísse do meu caminho. Só pra ver no que dava. Sei lá.
Mas claro que eu só pensei nisso depois, porque é assim que funciona, quando você mais precisa de uma solução elas não vem e quando passa o momento, elas fluem como água, na sua cabeça.
Hunf.
[escrita há um bom tempo atrás, postada só hoje]